Diário / 12 de março de 2017

Minha experiência no 17.1

Esse ano, quando eu soube que as inscrições para o Open 2017 estavam abertas, senti um inédito frio na barriga. Já treino CrossFit há tempo suficiente para não fugir mais desses desafios então eu sabia que não ficaria em paz comigo mesma se não me inscrevesse dessa vez.

Procrastinei.

Para quem não sabe, CrossFit é de fato um esporte. As pessoas que praticam são chamadas de atletas, competem, ganham e perdem. O Open é a primeira fase de uma seleção mundial de pessoas para competirem no CrossFit Games, que acontece anualmente. Todas as quintas-feiras, durante o Open, um WOD* específico é anunciado. Os atletas têm quatro dias para completarem o WOD (supervisados por coaches credenciados) e submeterem seus resultados no site. Os melhores de cada região seguem para competir no Regionals e de lá, o tão aguardado Games. Os WODs nessa fase do Open têm duas categorias: RX e Scaled. RX é a “prescrita”, com cargas e movimentos oficiais. Scaled é a versão mais light da coisa. As cargas são consideravelmente mais leves e os movimentos mais complexos são adaptados para que todo mundo consiga fazer.

Sempre evitei competições ao longo da minha vida porque desde criança é a mesma coisa: nunca fico satisfeita com a minha performance. Lembro da única vez que competi num evento tosco de natação, na escola. Me odiei durante dias por não ter completado a última chegada de front crawl em tempo de ir para a fase final do campeonato. Nunca mais competi.

Mas CrossFit tem essa coisa de você querer saber se consegue. Eu sigo vários atletas nas redes sociais e pensar que teria a oportunidade de fazer exatamente os mesmos treinos que eles dava até uma emoção. É um desafio mesmo. Eu tinha que fazer.

Pois faltando poucos dias para o final do prazo, me inscrevi. Ver meu perfil no site com foto, altura, peso e box afiliado tornou tudo mais real. Eu estava dentro da competição.

Quando a quinta-feira seguinte finalmente chegou, eu tinha três abas de transmissão ao vivo abertas e o Instagram na mão para não perder nenhum detalhe do anúncio do primeiro WOD. Eis:

Workout 17.1

For time:
10 dumbbell snatches
15 burpee box jump-overs
20 dumbbell snatches
15 burpee box jump-overs
30 dumbbell snatches
15 burpee box jump-overs
40 dumbbell snatches
15 burpee box jump-overs
50 dumbbell snatches
15 burpee box jump-overs

Women use 35-lb. dumbbell and 20-in. box

Time cap: 20 minutes

Nunca antes na minha existência eu tinha feito um dumbbell snatch. Faria o primeiro (e pelo menos mais uns noventa) com a carga RX. Risos.

Cheguei no box toda apreensiva, na sexta-feira. Chovia o mundo lá fora, o bairro inteiro estava sem energia e o clima no box era deveras apocalíptico: sem música, sem ventilador, sem luz. Eu não estava muito confiante sobre a carga, mas o coach me fez testar na frente dele e disse que era RX “fácil”. O sentimento ao ver que vai chegando a hora de começar o WOD é uma mistura de adrenalina, medo e ansiedade com a qual, ainda hoje, já caminhando para a quarta semana de Open, eu ainda não me acostumei. É uma tensão boa, mas é uma tensão real.

Os primeiros dez movimentos de snatch saíram com facilidade e os burpees com box jump foram rápidos. O coach me mandou ir mais devagar porque afinal eram vinte minutos daquilo e eu precisava estabelecer um ritmo que eu conseguisse manter, sem parar. No meio da segunda volta, os snatches começaram a pesar. Terminei e quando fui dar o primeiro pulo na caixa, escorreguei e bati a canela daquele jeito que só quem já bateu a canela num box jump sabe como é (o hematoma ainda dói, btw). Quase que ao mesmo tempo, vi um dos caras mais competentes lá do meu box (beijo, Zé!) cometer o mesmo erro. Respirei fundo e continuei como se nada tivesse acontecido enquanto o coach me mandava concentrar e só pular na certeza.

Em vinte minutos, cheguei até a volta dos quarenta snatches – que ficavam progressivamente mais pesados apesar da carga não ter mudado em momento algum. Eu quebrava as repetições numa tentativa de não desperdiçar movimentos mas mesmo assim tomei um ou outro no rep**. No fim, sentia meu corpo dividido em dois pedaços, o de cima e o de baixo. Minha lombar pediu demissão lá pela terceira volta de burpees e doeu em protesto por dias, depois.

Foto linda feita pelo Pedro, Fotografia CrossFit.

O que mais me surpreendeu na experiência toda foi ter terminado o WOD de fato feliz com o meu desempenho. Foi o meu primeiro treino totalmente RX da vida e, como eu não sabia o que esperar, achei que fui bem. Fiz 143 repetições, no total.

Doeu? Doeu.

Fiquei com hematomas? Fiquei.

Mas a sensação ver na prática o que o meu corpo é capaz de fazer apesar do ceticismo do meu querido e pesado cérebro foi muito, muito legal. Saí do 17.1 animada para o próximo.


*WOD: Workout Of the Day (o treino principal do dia, daqueles que você vê e chora).

**no rep: quando você toma “no rep” significa que seu movimento não foi válido por algum motivo. Uma bosta.


Tags:  CrossFit



Cintia Freitas
Sou formada em Tradução e em Marketing, gosto muito de escrever e odeio queijo. Todas as informações são igualmente importantes.




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16 Comentários

Mar 12, 2017

Sempre gostei de esportes e essas sensações que ele proporciona. CrossFit tem essa coisa toda de sempre ir se superando a cada treino. Cintia, continua assim que é sucesso.


Mar 12, 2017

Continue sempre assim, Cíntia. Sou muito fã sua e admiro muito o seu jeito de ser! Ps: Sonhei com você esta noite :)


Mar 12, 2017

Adorei!!!!!!


Mar 12, 2017

Gente! Tu foi guerreira mesmo. Eu tenho vontade de fazer CrossFit porque não haveria a rotina e o ambiente não atrativo da academia para mim. Por enquanto eu não posso mas ainda está nos meus planos.
Obrigado pelo post!
Xoxo .


Mar 12, 2017

Vim aqui pelo Live
Eu no fundo do meu coraçãozinho de pessoa sedentária tenho curiosidade sobre CrossFit mas a curiosidade ainda é menor que a preguiça.

Bjos. Adoro vc!


    Mar 12, 2017

    Faz um treino! Você vai sair do sendentarismo com certeza! É muito legal :)


Mar 12, 2017

Cintia, nós somos o que fazemos repetidamente, muito bom ver vc se identificar com algum esporte, uma pena a natação ter te traumatizado…é o meu esporte DA VIDA! Como nadei por muitos anos( 16 anos nadando rsrs) eu mesma faço meu treino e nado sempre que posso dia de semana , sábado e domingo é obrigatório ( 3km no mínimo!) .O esporte nos livra de vários abismos que a vida nos proporciona as vezes . É isso aí! sem medo! GO GO #JaProBanho :)


    Mar 12, 2017

    Oi Livia! Eu amo natação! Continuei treinando por bastante tempo, depois. O meu problema foi com competições, sempre fui muito crítica e não ter passado pra final naquele campeonato tosco me deixou decepcionadíssima, hahaha!


Mar 12, 2017

Olá Cíntia! Adoro seu trabalho e te acompanho em todas as redes faz tempo…
Eu faço treinamento funcional e o comentário geral por lá é de que o CrossFit machuca sem necessidade, devido às repetições e ao impacto dos movimentos. Mas, como nunca fiz, queria saber sua opinião sobre isso, você acha que o esporte exige demais, talvez além dos limites do corpo pelo que você citou das dores lombares? em algum momento te deixou em dúvida de continuar por causa dessas dores? Ou fato do treino de sobrecarregar te motiva mais?
Beijo!


    Mar 14, 2017

    Oi Clara! Existe muito preconceito com CrossFit porque, assim como qualquer outro tipo de exercício físico praticado sem supervisão de gente capacitada, obviamente pode causar lesões. Como é uma modalidade de movimentos impressionantes, eu sinto que o CrossFit acaba servindo de bode expiatório do recalque geral da nação, sabe? No meu box, todos os treinos são acompanhados por pelo menos dois coaches e todos os movimentos são adaptados de acordo com a capacidade de cada aluno, desde carga até número de repetições, se for o caso. Não existe treino sobrecarregado.

    O que acontece no caso da dor lombar que eu mencionei é que o Open é uma competição e eu não sei brincar de me “divertir” em competições. Nesses treinos específicos (que são cinco, no total), eu tenho sim me forçado a fazer mais do que eu faria normalmente. É um momento de teste e, mesmo nesse contexto, eu tinha um coach do meu lado prestando atenção em tudo que eu fazia. É lógico que se eu treinasse sangue nozóio diariamente como tenho feito nos WODs do Open, eu correria o risco de acabar me machucando. Mas é tudo uma questão de equilíbrio. Um box sério de CrossFit trabalha com aperfeiçoamento de técnica, força e desempenho na mesma proporção. Eu tenho certeza de que realmente existem muitas pessoas por aí se machucando horrores em boxes de CrossFit, mas o que causa lesão não é o esporte e sim profissionais incompetentes.

    Minha dica, se você tiver interesse em começar a treinar CrossFit, é visitar mais de um lugar, conversar com os coaches de cada lugar prestando atenção no que eles te perguntam (e SE perguntam) sobre o seu histórico de saúde e tentar observar o conteúdo dos treinos (se existe foco em técnica de levantamento de peso e movimentos ginásticos, por exemplo). Ou só vai lá pro meu box porque lá eu garanto, hahaha! Boa sorte!


Mar 12, 2017

Parabéns Cintia! Impressionada de ler sobre o seu treino aqui! Agora nada de música de fossa, por favor! Esporte combina com energia positiva! Cuide também da sua cabecinha. Mente positiva ajuda o corpo e a vida! Você irá precisar dos dois em forma para atravessar sua jornada em paz e realmente bem. Enxergue o que há de melhor no seu momento presente, não importando como ele se apresente, sempre você irá encontrar o que realmente agradecer ao Universo! Você pediu comentário estou deixando o meu, de alguém que te admira e pode quase ser sua avó! Um beijo grande menina linda e de coragem


    Mar 14, 2017

    Obrigada pelo comentário, Elisabete! Cuidarei bem da minha cabecinha, hahaha! (sobre as músicas de fossa, já não garanto)


Mar 13, 2017

Manjo nada de crossfit, mas adoro ler seus textos! Suas descrições me fizeram até sentir a dor da batida da canela no box! Hahahah Ansiosa por ler suas crônicas no seu livro! ;D tá de parabéns aí nos exercícios! Guerreira! o/ beijos!


Mar 13, 2017

Morro de vontade de fazer CrossFit mas tenho um problema no joelho, única coisa que posso fazer no momento é andar de bike e natação porque não tem impacto. Mas quando eu estiver 100% quero entrar nesse negocio aí, você me deixou mais na vontade do que eu já estava. E parabéns pelo desempenho! =)


    Mar 14, 2017

    Tem muita gente que entra pro CrossFit com problema no joelho, nas costas, nos ombros e tal e consegue MELHORAR, sabia? Se você encontrar um box legal pra treinar, com bons e responsáveis coaches, talvez até já dê pra começar! Faaaz :D



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