Diário / 23 de setembro de 2008

Carteira de Habilitação – parte 2

Depois de desmarcada por burrice de alguma das novecentas partes envolvidas no processo, fui fazer a prova teórica numa quarta-feira.

Me mandaram chegar na Auto Escola às 07h00 da madrugada pois nos levariam até o local do exame. Cheguei no horário marcado. Éramos eu, duas véias e uma menina que parecia ser um pouco mais velha que eu. Por último mas não menos importante, chegou o cara que ia dirigir. Cabelo grisalho, camiseta branca dois números menor, calça jeans suspeita e postura de “e aí brotinhos, o que está pegando?”.

Depois de pegarmos cada uma sua respectiva prancheta com um número de protocolo (lembrem-se bem dessa palavra) e a lista com desenhos das placas de trânsito, entramos todas no carro e esse sim foi o grande começo. Mencionei o horário, né?! Pois bem, as véias não ficaram quietas nem por um segundo. “É, teve uma vez que um hómi morreu nos meus pés, eu sentia aquele sangue quente nos meus pés…” etc. Não sei qual foi o gancho, mas esse assunto logo evoluiu para casamento. Fui despertada de meu estado de transe por uma mão na costas e o seguinte conselho: “- Demora pra casar, viu? Namora muito, vai pra festas”.

Chegando ao local do exame, saímos do carro e cada uma foi para um lado, finalmente. Sentei na sarjeta e lá fiquei, folheando o livrinho do CFC na parte das multas. “Que tipo de multa toma o motorista ao atropelar um elefante roxo que atravessa na faixa de pedestres da via local?”. Risos. Pensando nessas situações que certamente estão previstas em algum ponto do Código Penal de Trânsito, senti uma polêmica entre as pessoas que esperavam comigo. Ninguém mais, ninguém menos que o Tio do Protocolo. Gordão, gigante e mal-humorado.

Ele só apareceu. Uma pobre coitada chegou nele e perguntou alguma coisa sobre o horário. “- Gente ó, um minuto de sua atenção – aos berros – vocês todos têm esse papel aqui? – tirando um papel da mão da menina e mostrando-o para todo mundo, TÊM?!”. Ele gritando com o público e a menina na frente dele, provavelmente muito arrependida de ter aberto a boca. “- Pois é, aí consta o horário da prova de vocês. É o protocolo. Se tiver escrito 7h30 é 7h30 que vocês vão fazer a prova. Se tiver 8h é 8h. Se tiver 8h30 é 8h30” – e assim por diante ele foi repetindo os horários até chegar em 11h30, cuspindo nas pessoas que estavam sentadas logo abaixo. “- Esse é o protocolo de vocês” – sacudindo o papel, “a gente segue o protocolo. Protocolo serve pra isso. Recebem o protocolo, seguem o protocolo”.

Foram chamando aos poucos os grupos de cada horário que constava no protocolo, e adivinhem só: o tal horário no protocolo só serviu pra dividir filas porque todo mundo entrou ao mesmo tempo. Enfim.

Uma vez todos acomodados, os renovação de carteira começaram a fazer a prova primeiro. Pediram silêncio. Quando todos finalmente ficaram quietos, tocou o celular de uma das renovação de carteira. Primeira vez, vários toques. “Haha, desculpa”, disse ela. Segunda vez, vários toques. “Ah, haha, desculpa”. Tava tudo silêncio, sabe. Não era coisa que dava pra ignorar. Na terceira vez, meio toque já teria sido muito para a minha paciência, mas claro que foram vários. As pessoas em volta se mexeram um pouco, num sinal geral de desconforto. “- Tsc”. Eu acho que se tivesse tocado mais uma vez eu teria levantado de onde estava, passado por cima das cabeças de todos, arrancado o celular da mão da mulher e quebrado ele na cabeça dela. Não tocou mais, embora eu tenha certeza de que não foi porque ela tenha tido um súbito acesso de bom senso e desligado o aparelho mas sim porque a pessoa que estava ligando desistiu.

Nove horas começamos a prova. Nove e quinze eu tinha terminado. Olhava para os lados e via as pessoas na primeira página de perguntas, virando e revirando a prancheta de placas de trânsito. Dei uma olhada no meu gabarito, ele deu uma olhada em mim. Olhei de novo as perguntas, nada pra mudar. Mesmo que tivesse eu nem poderia. Hm. Nove e dezesseis. Só saí de lá um pouco depois das 10h.

Já no ônibus, saquei o bendito caderninho do CFC, para conferir algumas respostas. Duas eu errei, com certeza. Só falta eu não passar nesse lixo. Me mato.

Passei. Ontem foi a primeira aula prática.

(Esse post foi originalmente publicado em 23 de setembro de 2008, leia a parte 1)


Tags:  Carteira de Habilitação



Cintia Freitas
Sou formada em Tradução e em Marketing, gosto muito de escrever e odeio queijo. Todas as informações são igualmente importantes.




Posts Relacionados




12 Comentários

May 20, 2015

Ano passado após longos anos sem pensar na possibilidade passei por todo processo de tirar a habilitação. Em resumo, fiz duas provas na rua a tão temida avaliação final, mas entre outros percalços tristes e que gostaria de apagar da memória não passei. O carro morreu uma esquina muito, mas muito próxima do final! E eu que já via minha carteira “sorrindo” pra mim… Não tenho condições de nova tentativa e acho que por enquanto, não desejo passar por isso novamente.


May 20, 2015

Que estranho! Aqui no RS a prova é “tudo no computador”…


May 20, 2015

Ah não ! Já ?!
Esperando ansiosamente pela continuação.
Beijo.


May 20, 2015

ahaha Muito bom essas crônicas, bem humoradas.


May 20, 2015

Minha reação às Histórias da Cintia > Seja forte, filha


May 21, 2015

Ansiosa pela continuação, também to fazendo a carteira agora :)


May 25, 2015

Ainda estou na fase das aulas teóricas.
Praticamente 4 horas em sala de aula e apenas 1 hora de conteúdo aproveitável.
Choram as rosas!


Jun 05, 2015

Se serve de sugestão para prova prática: Siga arrisca o protocolo. Os mínimos detalhes pode te custar uma reprovação.
Para não servir de consolo, na época que foi a prova prática de 20 meninas apenas 4 passaram (reza lenda que por que ainda pagaram).
A prova teórica no Detran é mamão com açuçar…. até


Jun 06, 2015

hahaha “Só falta eu não passar nesse lixo, me mato”
Cintia, estou amando ler seu blog, o jeito que você escreve faz com que eu queira ler mais e mais, e as suas histórias são as melhores! Estou louca pra ler o resto, quando vai postar?


Jun 11, 2015

Estou gostando muito do seu site Cintia, adoro o jeito como você fala e a forma de você interagir… Ansioso para ver a continuação dessa crônica hahaha


Nov 08, 2015

Você escreve muito bem, Cintia. *-* Estou adorando o site <3



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *