Crônicas / 3 de agosto de 2010

O trem

Lá estava estava eu, depois de considerável tempo sem contato com transportes públicos em geral, sentada solitária e silenciosamente indo de um lugar da cidade para o outro via trem.

O trem pára, as portas se abrem e a louca entra. A primeira impressão foi magnífica já que aparentemente a mulher estava berrando consigo mesma. Logo vejo, porém, que estava usando fones e que segurava o celular na mão. Pelo menos estava gritando com alguém.

Um minuto de insanidade telefonística depois, ela finalmente finalizou a ligação – mas não sem antes pronunciar cada letra de todos os xingamentos que eu já conhecia e de mais alguns que passei a conhecer depois do episódio. Com o trem em movimento, ela levantou e andou em direção às portas. Socou as portas com ambas as mãos. Manteve a cabeça baixa por dois segundos e se virou para mim. “- Pronto, morri”, pensei. Acho que na verdade ela não tinha nem sequer notado a minha presença até aquele momento:

“- Desculpa, acabei de terminar com o meu namorado” – ela disse, sentando-se novamente.

Sem comentários.

As portas se abriram de novo. Duas meninas entraram e sentaram-se logo atrás da louca, um pouco mais para frente de onde eu estava. Mal sabiam o que estava por vir.

Eis que um cara apareceu. Do fundo do vagão, direto para as duas meninas que tinham acabado de chegar.

“- E aí? O que vocês vão fazer hoje, mais tarde?” – falou ele, com aquele ar de azaração.

Antes delas terem a chance de responder, a louca disse:

“- Sai fora, cara. Elas não querem conversar com você”
“- Como você sabe se elas nem responderam ainda?” – ele retrucou.

Momento de tensão.

“- Ah é?! Meninas, vocês estão interessadas nesse idiota?” – indagou a louca.
“- Ah, ele parece gente boa” – disseram as meninas, contrariando os ensinamentos maternos de não falar com estranhos mentalmente instáveis.
“- Desculpa então, casem-se, tenham filhos e sejam felizes. Argh” – disse a louca, contrariada.
“- Bem feito. Cuida da sua vida” – respondeu o cara, perdendo uma ótima oportunidade de ficar calado.

Nessa hora a louca simplesmente levantou, e indo em direção a ele, gritava:

“- O quê?! Não, vem aqui. Eu vou quebrar a sua cara. Quem você pensa que é?! Eu vou QUEBRAR A SUA CARA!”

Empurrou, chutou e estapeou o infeliz – que justamente quando estava começando a reagir para dar uns tapas na mulher, foi parado por uns cinco outro homens que surgiram do além.

Mas homi que é homi não deixa barato. Um dos cinco, depois de ter separado a louca do primeiro idiota, virou para ela e, obviamente depois de muita reflexão disse:

“- Vai sentar, sua vadia doida. Você é louca!”

E foi aí, caros leitores, que choveu canivete. Fogo por todos os lados, infestação de insetos, tsunamis e furacões:

“- O QUÊ? EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FALOU ISSO! EU SOU UMA VADIA LOUCA?! EU VOU MOSTRAR PRA VOCÊ QUEM É A LOUCA!”

A mulher foi para cima do cara furiosamente, estapeando e socando a cabeça dele, enquanto os outros amigos assistiam, hesitantes – meio que entre se proteger de eventuais golpes e tentar ajudar o amigo.

Contei que ela era meio gorda e tava com a metade da bunda aparecendo? Lindas imagens, viu pessoal. Definição de classe e elegância, sem dúvida.

A história termina com os caras descendo do trem, ainda xingando e sendo xingados. Depois que todas as portas estavam fechadas, o que tinha apanhado mais não conseguiu evitar de fazer uma última memorável aparição, batendo no vidro da janela e falando o que eu imagino terem sido lindas palavras.

O silêncio estabelecido assim que o trem entrou em movimento foi provavelmente a parte mais constrangedora da coisa toda. A louca sentou, respirou fundo e virou-se para as meninas, que mal se mexeram durante o barraco:

“- Eu tenho dois filhos, sabe. Não costumo ser assim violenta”.

Assim violenta, não. Só uns chutes esporádicos na cara de pessoas aleatórias.

Moral da história: Evite dizer que pessoas loucas são loucas.


Tags:  Verídicas



Cintia Freitas
Sou formada em Tradução e em Marketing, gosto muito de escrever e odeio queijo. Todas as informações são igualmente importantes.




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28 Comentários

Mar 13, 2015

Parabéns pelo site, ficou super interessante você escreve muito bem. Realmente a situação é engraçada e constrangedora ao mesmo tempo, não sei como eu reagiria.


Mar 13, 2015

Escreva mais crônicas, são perfeitas, queria um sistema de RSS pra receber os posts no meu email, parabéns Cintia, sucesso!!!


Mar 13, 2015

Kkkkkkkkk nossa! Cintia seu site é demais! Parabéns. Aliás, ótima crônica! Sucesso


Mar 13, 2015

AI CINTIA! HUEHUEHUE, morri de rir com a louca do trem!


Mar 13, 2015

Caraca suas crônicas são bas melhores!!


Mar 13, 2015

Achei que situações assim só acontecessem por aqui! hahahahaha


Mar 13, 2015

“- Eu tenho dois filhos, sabe. Não costumo ser assim violenta” ahahaha nem sei como agiria em uma situação como essa,mas já presenciei parecidas. No meu antigo bairro tinha uma senhora que era louca, e ela saia de casa e ficava na calçada esperando alguém passar pra ela dar um cintada nelas. Uma vez uns caras estavam passando por lá e ela acertou um nas pernas, o outro segurou ela enquanto o outro tentava tirar o cinto da mão dela, depois de tirarem ela entra em casa e sai com já espingarda (!) e coloca eles pra correr. Por isso é melhor nem reagir, pessoas loucas são imprevisíveis.


Mar 13, 2015

Obrigada pela dica. euahuhsuea


Mar 13, 2015

Cíntia, quero mais crônicas! Muito bom. Essa eu esperava menos é foi a q mais me surpreendeu! Q pessoa vivida você, em?! Kkkkkk


Mar 13, 2015

Cintia que site maravilhoso! Está tudo muito lindo e as suas histórias são ótimas.
PS: Não dá pra ler sem imitar a sua voz mentalmente kkkkk


Mar 13, 2015

Nossa site ficou muito massa parabéns!!! Adorei as cronicas tipo só coisas que acontecem com todos não?! rs


Mar 13, 2015

Rsrsrs nossa am eu a história e a moral


Mar 13, 2015

Rsrsrs nossa amei essa a história e a moral tbm


Mar 13, 2015

kkkkkkk imagina a cena: gorda irada x moleque azaração :v huehuehue


Mar 13, 2015

hahaha poxa Cintia, o jeito como você escreve me faz pensar em você mesma falando sobre essas situações, adoro seus vídeos e amei as 2 crônicas, parabéns pelo trabalho, site e que sua vida continue sendo cheia de sucessos e coisas engraçadas pra você contar pra gente HUEHUE


Mar 13, 2015

trem é trem, sem essas histórias não eram trens!


Mar 14, 2015

Meu Deus Cintia! Você escreve muito bem! Admiro muito o seu trabalho, sou uma fã sua. Continue assim, incrível!


Mar 14, 2015

Parabéns cintia… Te acompanho no YouTube à um tempao.. Fico feliz pelo seu crescimento… O site tá muito bonito, e grava mais videos, e com mofilho tbm rs


Mar 14, 2015

Você precisa escrever um livro com várias crônicas! Eu leria seu livro várias e várias vezes! Cintia, suas crônicas prendem a minha atenção. Eu não gostava de crônicas. Já li várias, entretanto, eu não gostava. Até eu descobrir que você escreve crônicas… Você consegue prender inteiramente a minha atenção com qualquer coisa que você escreve, e até a atenção do meu pai que, geralmente, é difícil de cingir.


Mar 15, 2015

Imaginei só as expressões da Cintia diante a situação ahahhahaha principalmente quando fixou o olhar na partes que a mulher mostrava durante” o conflito”


Mar 15, 2015

Cara,, eu achei que o final seria outro, EUHASU, deu lag no cérebro agora, !! mto bom ! parabéns .


Mar 16, 2015

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ri alto hahahhahha


Mar 20, 2015

Muito bom!!! Não chame ninguém de louca senão pode acabar mal ahahahahhaha


Apr 04, 2015

Cintia você escreve muitoooo bem =) Parabéns pelo site !!!


Apr 10, 2015

Adorei! Consigo imaginar todos os detalhes do texto!Vc é demais!


Apr 19, 2015

Cintia, que vida dahora você tem. A mulher da calcinha, a louca no trem! Normalidade na sua vida nunca, né? Kkkkkkkkk


May 15, 2015

kkkkkkkkkk sos, melhor texto do site . Sucesso.


Sep 13, 2015

Amei! Hahahah
Escreve mais crônicas



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