Crônicas / 24 de dezembro de 2015

A história do Natal (minha versão)

Maria tava lá em Nazaré concentrada, ocupadíssima com quaisquer que fossem os afazeres que uma mulher tinha no tempo dela. Cansada, resolveu sair para dar uma volta pelo bairro. Levantou-se e saiu. Mal sabia ela o que a esperava lá fora.

BAM. Anjo Gabriel. Na hora, achou que tinha ficado cega. “Pff, não devia ter saído pra andar pelo bairro! Saí e fiquei cega! Essas coisas só acontecem comigo, não é possível!”. Com as mãos no rosto, desesperada, preparou-se pra começar a tatear o caminho de volta para casa.

– Uh-ham, pigarreou o anjo. Olá, Maria.

– Meldels, como você sabe o meu nome?

– Bom, como talvez você possa perceber, eu meio que sou um anjo. Saber o seu nome é o mínimo que posso fazer.

– Claro, claro. Desculpa, é óbvio – suspirando de vergonha por estar fazendo papel de idiota na frente de uma entidade divina.

– Então, Maria. A notícia que estou trazendo para você é bem mais surpreendente do que só saber o seu nome sem nunca termos nos falado antes. Você precisa estar preparada.

– Isso vindo de um anjo parece sério. Um anjo me falando que tem uma notícia de surpreender!

Estabeleceu-se um silêncio um pouco constrangedor. Gabriel ficou pensativo, lembrando de todas as coisas surpreendentes que já tinha visto ao longo de sua vida angelical, rindo-se. “- Tem umas coisas que só naquele céu de meu Deus mesmo, viu…”. Maria o encarava, pasma.

– Viu, desculpa interromper seu momentinho flashback mas eu tô botando um ovo, aqui.

– Rs, botando um ovo, Maria? O seu problema não vai ser assim tão absurdo!

– Problema?! Assim tão absurdo?! Quer dizer que a sua notícia PODERIA ser a de que eu vou botar um ovo?

– Vindo de Deus, filha, poderia sim, viu? Ele tem uma imaginação que só Ele.

Maria só acreditava que não estava em alguma espécie de pegadinha porque Gabriel flutuava e brilhava muito – ela tinha noção da época que vivia e sabia que não existia tecnologia suficiente para efeitos especiais.

– Bom, acho que já deu pra fazer um mistério, né. Vou te dar a notícia.

– Sim, por favor me diga o que veio dizer!

– Tenho uma curiosidade antes, se não se importar.

– Em que posição estou eu para me importar, né Seu Anjo. – concedeu Maria, curiosa.

Gabriel ficou envergonhado.

– Digamos que… hm, eu saiba do seu… relacionamento, sabe, com o José. O negócio vem de data, né?

– Com certeza. Ele me enrola há anos – afirmou Maria, pesarosa.

– É, né? Quer dizer, quando Deus me disse que eu devia vir aqui falar com você e tal, Ele contou que vocês estão juntos faz tempo. Sinceramente, quando Ele contou a notícia que eu deveria lhe passar, não achei nada demais. Bom, isso se não fosse pelo fato de que, hm, pelo menos lá nos nossos registros celestes…

– O quê? O que tem nos registros celestes?

– Ah, consta que você e o José nunca… hm, como direi…

– …?

– Juro que estou tentando achar um jeito menos ~anjo de dizer isso mas não estou conseguindo. Lá consta que você e o José nunca… consumaram os prazeres da carne. Sabe, afogar o ganso. Molhar o biscoito. Sei lá o que dizem hoje em dia.

– Credo, Gabriel. Afogar o ganso?!

– Você entendeu.

Maria respirou fundo.

– É, nunca fizemos nada. Não por falta de tentativas dele, saiba você. Mas sabe como é, quero casar primeiro.

– Entendo – o anjo ficou em silêncio por uns segundos, reflexivo. – É, então o negócio é bom mesmo. – concluiu ele, admirando Deus e sua perspicácia constante.

– Que negócio, como assim?

– Bom, Maria, a parada é a seguinte minha filha: Deus mandou dizer que tá te presenteando com um filho. Tipo sei lá, amanhã. Basicamente, você vai ficar grávida do filho de Deus, o próprio. Até o nome já está decidido: o bebê vai se chamar Jesus.

A Maria não piscava. Não soltava uma palavra, só faltava babar. Gabriel se controlava para não rir.

– Fala alguma coisa, mulher! Não posso ir embora assim.

– Olha. – disse Maria, recuperando-se. – Até que pra quem achava que a força de expressão ~botar um ovo ia de fato se tornar realidade há uns minutos, não estou tão mal.

– Pff, você vai ter o filho de Deus, querida.

– É. Vou surtar mesmo daqui uns cinco minutos, sem dúvida.

– Bom, recado dado, miga. A gente se vê!

E foi embora.

Maria voltou para casa andando devagar. Precisava ter filmado aquilo, as pessoas não iam acreditar. Mas quem mais tinha que saber, pelo menos por hora, era José. Pobre coitado, quando imaginaria?

Ele chegou para visitá-la como sempre fazia, no final da tarde. Percebeu logo que a mulher tava esquisita.

– Que foi, hein, Maria? Você tá esquisita.

– Ainda bem que você perguntou. Hoje eu fui dar uma volta pelo bairro e um anjo apareceu pra mim.

– Por que você foi dar uma volta no bairro? Quem faz isso? Só tem pedra aqui!

– José, por favor, esse não é ponto. Um ANJO apareceu para mim.

– Tá e o que ele falou?

– Disse que Deus vai me dar um filho cujo nome será Jesus, e que esse menino será o filho d’Ele!

– Nossa. Assim?

– Assim.

– Então quer dizer que nós seremos os pais do Filho de Deus. Que responsabilidade, né?

– Pois é, José. Cheira o meu pé.

– Ahn?

– Desculpa, amor. Devem ser os hormônios.

Nove meses se passaram.

– ESSA TERRA! Que que a gente tá fazendo aqui, José? Você não tem noção de NADA mesmo. Pelo amor do meu filhinho, viu. Literalmente.

– Maria, já disse que eu precisava vir pra Belém. Não tenho culpa que essa época do ano enche de turista aqui.

– Eu PRECISO sentar, José. Minha barriga tá pesando demais. Você já me fez andar de burro todo esse tempo, não estou passando bem. Nem para alugar um carro, sabe, você é muito mão de vaca. Sério, QUANTO a gente pagou nesse burro?

– Isso não importa agora! Estou batendo de porta em porta há mais de uma hora para tentar achar um lugar pra gente ficar mas ninguém tem vaga. O povo tá dormindo no chão, você viu!

– Argh!

Andaram mais. O calor era grande. De repente, já meio longe do centro da cidade, avistaram uma estrebaria.

– Ó lá. Tem uma estrabaria que parece vazia, ali. Que acha? – perguntou José, esperançoso.

– Acho absurdo você sugerir dormirmos com os cavalos, José. Sério.

Ploft. Estourou a bolsa de água da Maria.

– Ai Jesus (essa foi a primeira vez que a expressão foi utilizada na História), estourou minha bolsa!

– Que bolsa? Do que você está falando? Isso é hora de se preocupar com moda?

– Minha bolsa amniótica, José! Você não leu nenhuma página daquele livro sobre gravidez que eu te dei, né? Tô tendo o bebê, homem! Vou parir a criança!

Ele preparou uma cama improvisada com alguns panos que encontrou e foi ali que Jesus nasceu. O parto correu incrivelmente bem e Jesus era um bebezinho fofo.

– Como se sente, amor? – perguntou José mansamente, depois de limpar o bebê e ajudar Maria a se recompor.

– Vou te contar que se tivesse botado aquele ovo a coisa teria sido mais simples, viu.


Tags:  Natal



Cintia Freitas
Sou formada em Tradução e em Marketing, gosto muito de escrever e odeio queijo. Todas as informações são igualmente importantes.




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26 Comentários

Dec 24, 2015

Feliz Natal Cintia!! :D


Dec 24, 2015

Rsrs…
Ficou legal.
Ow, no 5 travessão depois que iniciam os diálogos, ta “surpreendentes” no plural, mas o texto ta singular… acho q digitou errado =P…
Feliz natal, bjo!


Dec 24, 2015

Kkkkkkk!
Cadê vc sua doida?
Feliz Natal!


Dec 25, 2015

Hahahaha, gostei muito dessa versão cômica Cintia! Ainda mais com essa pegada e vocabulário atual. Talvez fosse assim msm nos dias de hj (risos). Mas, o mais importante foi q o Filho de Deus nasceu e q seja glorificado o nome dEle nas alturas!


Dec 25, 2015

Muito bão, Cíntia! Hahahah
Ficou muito engraçado!
Pretende fazer mais postagens desse tipo? Eu ficaria agradecido caso continuasse.


Dec 25, 2015

Muito legal essa versão da história Cíntia. Você escreve muito bem, continue assim e vai acabar escrevendo um livro, que caso aconteça vou comprar óbvio :)


Dec 25, 2015

simples e muito engraçado ueahushaeuha
curti praca


Dec 27, 2015

Kkkkkkkk kkk muito bom!!!


Dec 27, 2015

Oi Cintia :)

Quanta criatividade! Ficou bem divertido rs
Você deveria escrever mais histórias desse tipo, viu?

Parabéns pelo blog e pelo canal neste ano de 2015!


Dec 31, 2015

Você é engraçada demais, sério. Eu compraria um livro seu.


Jan 03, 2016

Santa criatividade hein Cintia! Hahahahaha… Botar um ovo? De onde veio essa ideia? Kkkkkkkkkkkk… Estou sentindo falta dos seus vídeos de inglês, mas tudo o que você grava ou escreve é ótimo!


Jan 04, 2016

kkkkkkkkkkk mt bom


Jan 04, 2016

Eu ri durante a história toda! Beijos Cintia !!


Jan 06, 2016

Kkk gostei do texto, criativo!! TB gosto de escrever.
Tenho um blog também.. Rs mas de beauty…mas é bem fraquinho kkk numbtenho Real p turbinar as postagens…queria receber produtos p não precisar comprar… Kkk
Ops to doida… VC entendeu?? Rs


Jan 06, 2016

Só corrigindo meu nome


Jan 08, 2016

“Ploft. Estourou a bolsa de água da Maria.

– Ai Jesus (essa foi a primeira vez que a expressão foi utilizada na História), estourou minha bolsa!

– Que bolsa? Do que você está falando? Isso é hora de se preocupar com moda?”

Rindo dessa até 2090…kkkkkkkkkkkrsrsrsrs


Jan 08, 2016

Hahahahha
Adorei Cintia!
Muito criativa sua versão, sua cara mesmo hahahha
Te adoro
:)


Jan 12, 2016

Esperando o dia em que você escreverá um livro <3


Jan 15, 2016

Cintia, amei essa história. Vou você mesma que criou! Parabéns ficou boa! Gostei do jeito que você coloca uma história de 2016 anos atras na atualidade. Perfeita. Imaginei muito, como se fosse um teatro.


Feb 20, 2016

Ahhh gostei DEMAIS!
Amo contar histórias nesse estilo “minha linguagem” haha. :D


Apr 23, 2016

Amo suas ironias! Você escreve bem demais, moça. E acho que crônica e conto são seus estilos.


Jun 20, 2016

Conheci o vlog há um mês, viciei, enjoei. Assisti aos mais antigos, quis sabermais, vim para o blog e agora tô xonada. Muita luz, Cíntia!


Apr 09, 2017

Amo essa criatividade cintilante.


Apr 26, 2017

A história ficou demais! Só fiquei imaginando as pessoas dormindo na rua: será que lá tinha barata?
Kkkkk
Parabéns Cintia, aguardando seu livro.



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