Comportamento / 8 de maio de 2016

Sobre a ideia de ser mãe

Que louco deve ser virar mãe. Primeiro, ter uma pessoa crescendo dentro de você por quarenta semanas. Depois, ser a única encarregada pela nutrição dessa pessoa que não faz nada sozinha (já era assim antes, mas agora a ~pessoa consegue ser intensamente vocal sobre o assunto e chora de fome). Vacinas, cólicas, febre – a sensação de impotência que deve te invadir quando você não consegue tirar os pequenos sofrimentos daquela vidinha que nem sequer conhece os sofrimentos que o mundo ainda vai proporcionar. Se preocupar pra sempre com o bem-estar alguém. Af.

Eu tenho fases quando se trata dessa coisa de ter filho. Penso no que o mundo vai virar, se quando meu filho for adulto ainda vai existir água, penso em como eu lidaria com a frustração de ver meu filho errando mesmo tendo sido avisado pra não fazer. Penso na minha barriga crescendo, no medo de ter um par de ombros saindo por um lugar que definitivamente não tem o tamanho de um par de ombros, penso se eu estaria pronta para não viver mais essa vida que eu conheço. A fase atual é “tô de boa de filhos”, caso não tenha dado pra perceber.

Na minha idade, minha mãe já estava grávida. Ela tinha uma franja horrível (desculpa, mãe, o que você tava pensando?!), comia pão francês igual uma maníaca e conta que quando estava trabalhando, sentia que eu curtia os shows junto com ela, de dentro da barriga. Amo ver minhas fotos de nenê, tenho a impressão de que as coisas fluíam de um jeito mais despretensioso vinte e seis anos atrás. Hoje em dia o mundo é menor e o acesso à informação é inversamente proporcional. Ainda não tenho nem planos de ficar grávida mas sei que quando for procurar hospital pra parir, vou precisar me certificar de que os recém-nascidos não passam pela parte pública do lugar, sabe? Nunca me preocupei com estrias mas sei até o nome dos óleos que vou ter passar pra evitar que minha barriga vire uma grande e albina uva passa depois que o alien resolver sair das minhas entranhas. É outra realidade, não tem jeito.

Por outro lado, deve ser legal ensinar coisas para um filhotinho de ser humano. “Isso é amarelo”, “Isso é uma maçã”, “Você segura o lápis assim”, “O avião voa porque _________” (não sei ainda, vou ter que descobrir antes de virar mãe, evidentemente). Gosto de ouvir as crianças perguntando sobre coisas que a gente nem vê depois de virar adulto. Também acho hilário ver mini-gente de calça jeans com bolso. Tipo, querido, você vai colocar o que nesse bolso? Baba?

calvin and hobbes-raccoon1

Quando me vem essa ideia de ter filho, outra coisa que penso muito é na importância de criar a pessoa para o mundo. Meus pais foram campeões nessa categoria e eu respeito muito isso. Vejo tantas atrocidades que pais cometem sob o pretexto de “proteger os filhos” que valorizo cada dia mais a atitude que meus pais tiveram comigo. Será que eu saberia fazer isso? Não deve ser fácil. Quando é pequeno é porque é pequeno, quando cresce, ainda não cresceu o suficiente pra saber. Vou precisar deixar meu filho errar, se machucar, se sujar, vou precisar deixar chorar.

Talvez eu nem tenha filhos, mas hoje já olho para mães com uma perspectiva diferente. São quase que um enigma para mim porque apesar de serem totalmente responsáveis por outra vida além da própria, são só pessoas. Cheias de inseguranças por nunca terem vivido nada daquilo e portanto não saberem de fato o que estão fazendo. Mesmo mães de segundos ou terceiros filhos, nunca foram mães de dois ou três filhos antes. É tudo novo sempre. Minha mãe, que tem duas filhas adultas, nunca foi mãe de mulheres adultas. É tudo novo para ela também.

calvin and hobbes-raccoon2

Deve ser muito louco virar mãe. Parabéns à todas mas principalmente à minha que não só não tem mais aquela franja horrorosa como agora tá com o cabelo mais bonito que o meu.


Tags:  Observações



Cintia Freitas
Sou formada em Tradução e em Marketing, gosto muito de escrever e odeio queijo. Todas as informações são igualmente importantes.




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14 Comentários

May 08, 2016

Lindo post Cintia. Ter filhos não é tarefa fácil, mas é muito gratificante. Bjs
Happy mom’s day


May 08, 2016

Adorei o texto, Cintia! E essas tirinhas são boas demais. Acho que esse texto tocou num ponto muito sensível do que é a maternidade. Normalmente a gente pensa nisso como filhos, em como nossas mães foram boas para nós, mas acho que ser mãe é muito mais admirável quando você vê as mães como pessoas tão inseguras quanto os filhos, que são filhas elas mesmas, que tem seus desejos, sonhos, dias ruins, mas dão o que podem e mais um pouco para transformar aqueles filhotinhos em gente de verdade. Não acredito que o amor de mãe seja natural, é uma escolha, é abdicação, é um gesto verdadeiramente… selfless. Eu quero ter filhos, mas não imagino isso acontecendo num futuro próximo e nem sei se vou me sentir pronta para ser mãe algum dia. Só espero que, se um dia eu for, eu consiga ser suficientemente boa, como minha mãe foi pra mim. (Winnicott é maravilhoso para falar de maternidade, caso se interesse por psicologia. Me fez ver as mães com outros olhos…)


    May 08, 2016

    Obrigada pelo seu comentário, Camila! Amei <3


      May 08, 2016

      Vou fingir que isso acontece todo dia e me limitar a dizer: disponha! Eu adoro comentar e vou aparecer por aqui mais vezes, no youtube eu já estou sempre. Gosto muito do seu trabalho! <3
      Boa semana!


May 08, 2016

Não tenho palavras.
Só as 3 acima.
Amo vc❤️


May 08, 2016

Chega uma fase da vida que a gente para pra analisar melhor as coisas. não é de hoje que eu venho sempre me colocando no lugar da minha mãe ou da mãe dos outros. Quando alguém diz pra mim que a mãe não deixou fazer algo, eu paro e penso se eu fosse a mãe daquela pessoa, e sempre analiso a situação. chega a ser engraçado, e lendo agora esse seu texto eu parei pra analisar ainda mais, imaginei tudo o que você escreveu, e aproveitando que entrei nesse assunto… você deixa todos próximos a você quando escreve, eu penso no dia que eu te conhecer (espero que esse dia chegue), como te acompanho a muito tempo, muitas coisas parece que você tava conversando só comigo, vendo seus snaps é um exemplo, me sinto próxima a você, e acho de certa forma triste pq me sinto próxima, como se fosse sua amiga e na verdade não é assim, parece que quando eu te ver, vou falar “ooi cintia, saudades, quanto tempo” e você “pois é menina, você tava sumida”, mas na verdade vou te encontrar e você nem vai saber quem eu sou. haha como diria o pensador contemporâneo Sr. Omar, “Trágico”. hahah mas enfim. vontando, acho que isso de se por no lugar das mães que a gente conhece e prestar atenção nos detalhes e analizar as coisas, vai ajudar no futuro quando a gente for mãe. :D <3


May 09, 2016

Meu Deeeeeeeeeus, essa ultima frase heehueuueuhehue Eu não penso em ter filhos EXATAMENTE pelos mesmos motivos que você citou. Sem contar que NÃO BATEU VONTADE. Simplesmente. Não é que eu tenha uma vontadezinha, porem tenho essas incertezas, simplesmente não tenho vontade. E convenhamos, pra ter flho TEM que ter vontade, pq qual seria o sentido? Teho 20 anos e acho que essa vontade não vem tão cedo.


May 11, 2016

Nhjj b n nm mmmb . M bbb beg hj olpllq ghv

.b bj

Ia comentar, mas a Bella me roubou o celular e escreveu isso aí ^ pra nós.


May 11, 2016

Sei lá… Lendo seus posts as vezes penso que sou bem mais velha do que minha idade… (Só pra constar tenho 18 há apenas 5 meses…)
Tudo bem que não fico pensando sobre ter filhos filhos, na minha lista de assuntos para pensar isso está bem no final! Mas pelas poucas vezes que isso passou pela minha cabeça eu pensei exatamente as mesmas coisas que você!

Ah! E as tirinhas são ótimas, muito divertidas!!


May 13, 2016

Depois que eu fiquei mais velha também mudei a minha maneira de ver mães. Quando eu era pequena minha mãe sempre era “aquela-que-sabe-de-tudo”, se eu tinha um probleminha de não achar meu chinelo minha mãe mentalizava onde estava e falava pra mim, era um incrível superpoder (tirando a ameaça de “se eu for aí vou esfregar na sua cara”) e agora minha mãe me pede opinião e conselhos de que fazer; quando percebi isso, vi que ela também tinha alguns momentos de “meu-Deus-o-que-eu-faço-?”. Acho que isso nos aproxima mais, é mais uma forma que a minha mãe achou de me ensinar que nem tudo às vezes é como queremos e não tem problema ficar meio perdido… É só achar o caminho de volta, e quando tá junto com a mãe é mais fácil. Obrigada mãe. :)


May 17, 2016

Que post maravilhoso! Adorei saber sua opinião quanto a esse assunto.
Te adoro, dona Cintia hahahaha


Jul 14, 2016

Adorei o texto Cíntia! super atual,já que agora podemos escolher ter ou não ter filhos.Eu não os terei,respeito quem quer ter,mas acho que não há necessidade nenhuma,pois o país está lotado e muuuito violento para colocar mais gente aqui.Principalmente o RJ com as olimpíadas. Mas às corajosas e guerreiras: felicidades!!! Amo poder ter o direito de escolher o que farei da minha vida,amo dormir até a hora que quiser e não ter ninguém dependendo de mim! amo meu corpinho magro e malhar todos os dias! amo meu maridinho e fazer amor com ele sem ninguém atrapalhar.Amaremos viajar sozinhos velhinhos! sim,somos dois super felizes childfrees! e totalmente a favor do aborto.um abraço! adoro seus vídeos!


Jul 14, 2016

adorei Camila: pra ter filho TEM DE TER VONTADE e não se render a pressão da sociedade! Já viram a última entrevista da Jennifer Aniston?mara! bjos



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